Sobre este blog
Blog das aventuras de Fausto Pinheiro Pereira pelo mundo afora (bom, na verdade, Brasil e Japão na maioria...) Escrito em português
Friday, March 31, 2006
Primaverno
Na semana passada começou oficialmente a primavera. Agora, uma semana depois, as flores de cerejeira começaram a desabrochar. Fomos ontem no parque de Ueno e tudo estava muito bonito. Havia algo, entretanto que não combinava muito com o ambiente: o frio.
Por alguma razão, o frio do inverno se recusa a deixar o arquipélago japonês. O frio continua de rachar e o vento é forte e seco. Hoje a mínima foi de seis graus e a máxima 14. Imagino como será o clima durante esse ano.
Ah, e para melhorar, teremos chuva no domingo.
Esse clima doido faz combinar duas coisas terríveis de duas épocas distintas: gripes e resfriados, do inverno; e alergia a pólem, da primavera. Felizmente a segunda não me afeta ainda (dizem que é acumulativo, quanto mais primaveras passadas no Japão, mais o pólem dos cedros passa a afetar você), mas esta semana quase peguei um resfriado. Graças ao descanso e a bateria de remédios, vitaminas e outras coisas que temos aqui em casa, me recuperei antes de entrar em um estágio mais avançado.
Amanhã vai acontecer um evento raro no Japão: os ônibus de 3 empresas vão entrar em greve. Muita gente deve ser afetada. Para ser sincero, greve não é um negócio de que se ouve falar muito por aqui. Na verdade, antes desse anúncio de greve, só soube de mais um: o que teve no dia 16 deste mês, só que foi greve dos ferroviários da província vizinha de Chiba. Foi justamente onde aconteceu a FOODEX, mas felizmente a greve não nos afetou no dia. O que não quer dizer que ninguém foi afetado. Pelo contrário, milhares de pessoas ou chegaram muito atrasadas no trabalho ou talvez nem tenham podido comparecer.
Falando em atraso, apesar de os japoneses se esforçarem muito, nem sempre é possível eles seguirem o cronograma dos trens e metrôs. Especialmente quando há um acidente envolvendo pessoas (incluindo infelizmente também casos de suicídio), os trens se atrasam muito. Uma vez peguei um chá de cadeira de mais de 35 minutos. E o pior é que o trem nem estava em uma estação: parou no meio da linha, entre uma estação e outra. Só restou esperar. E o pior é que era dia em que eu ia para o meu trabalho temporário (o das sextas-feiras). Mas isso não me causou maiores problemas, apesar de eu ter no final chegado com quase uma hora de atraso: bastou apresentar o certificado de atraso (um papeleco parecendo nota de compras) comprovando que o trem atrasou. Sempre que há um atraso, estes papéis são distribuidos em qualquer estação da linha de trem. Basta falar para o funcionário o percurso tomado. Como ele sabe que houve um atraso, entrega sem muita cerimônia.
Eu vi isso uns dias atrás. Tinha um boxeador japonês que lançou um livro de fotos, mostrando sua vida e carreira. Na turnê de lançamento do livro, em vez de dar autógrafos, ele resolveu ser mais original. Os seus fãs estavam fazendo fila para ganhar um soco na barriga!
Felizmente, isso não é normal por aqui. Bom, não posso dizer que as pessoas que entravam na fila eram normais.
Isso leva a muitas considerações:
É bom ter cuidado nas filas em que você entra.
Isso prova que o ditado "de graça até injeção na testa" precisa ser revisado
Ele estava lá, imóvel, estirado no chão. Havia algumas pessoas em volta dele. Alguns, olhavam para ele e comentavam coisas entre si, impassíveis. Outros passavam, olhavam e iam embora. Um parou, tirou umas fotos e saiu. Outro tentou cutucá-lo com um jornal enrolado, para ver se mexia. Mas ele continuava imóvel.
Estranho pensar que não fazia nem meia hora ele estava conversando com a gente, bebendo e comendo. Era um dia normal de domingo, um churrasco entre amigos. E agora ele estava lá, caído no chão.
Fui falar com os outros que estavam no churrasco sobre o que tinha acontecido com ele. Voltei depois e já não havia nada nem ninguém. Devem ter levado ele para o quarto.
Talvez agora ele pense duas vezes antes de beber a ponto de apagar no meio da rua e fazer papel ridículo. Ou talvez não. (Em memória às várias latas de cerveja que este amigo matou)
Mais uma vez tenho a chance de participar como intérprete (e pessoal de apoio) do pavilhão brasileiro da feira internacional de alimentos de Tóquio, FOODEX. Como muitos eventos que levam o nome Tóquio, a feira não é realizada em Tóquio, mas sim em Chiba, uma província vizinha. Mas isso não vem ao caso. Há uma novidade muito mais importante: a Maressa está trabalhando junto comigo no evento, em outra seção, a de degustação. Está sendo uma boa experiência para nós dois e, até agora está sendo divertido, apesar de estarmos um pouco cansados. Tomara que os três dias que faltam sejam igualmente proveitosos.
Um dia desses, tive um sonho estranho. Sonhei que estava no mesmo quarto onde estava dormindo. De repente, senti uma presença, que fez todo o meu corpo arrepiar. Era a sensação de que algo que não deveria existir estava aproximando. Logo consegui perceber do outro lado da porta entreaberta um fantasma (ou morto-vivo). Não estava com medo. Me armei de um bastão (ou porrete, não me lembro bem) e saí, para descer o sarrafo na infeliz alma-penada. Encerrado o serviço, voltei para o quarto para descansar. Foi justamente neste momento que eu ouvi um barulho. Agora era um lobisomem, que tinha tentado me atacar. Ele pulou em cima de mim, mas eu consegui me libertar e descer o porrete nele, até estar livre de mais uma peste.
Essa situação se repetiu algumas vezes, com outra assombração aqui e outro monstro ali. Eu não estava com medo, apenas estava de saco cheio. Cada vez que eu tentava descansar de tanto dar porretadas, aparecia mais um...
Eu devia ter falado disso há mais tempo, mas muitos fatores me impediram de escrever sobre esse assunto quando a notícia era fresca. Faz algumas semanas, o empresário Takafumi Horie, presidente da empresa (ou melhor, grupo de empresas) Livedoor foi preso por ter mentido para aumentar a demanda das ações de sua empresa (e com isso tirá-la do vermelho, se eu bem me lembro). Mentira pode ser um crime grave, especialmente quando influencia o mercado de ações inteiro. A justiça japonesa não deixou passar batido, e o empresário agora está na cadeia, passando (muito) frio. Considerando que ele morava no caríssimo complexo de edifícios Roppongi Hills, o que é um grande símbolo de status por aqui, a mudança é mais que radical.
Isso chama a atenção para uma coisa interessante: até sua prisão, ele era chamado nos noticiários de Horie社長(shacho, presidente de empresa). Depois, passou a ser chamado de Horie容疑者(yougisha, suspeito). Nos jornais é comum associar o nome à função da pessoa por aqui no Japão. Bem mais conveniente que usar o -さん(san) depois do nome de alguém, como se faz normalmente. Outros exemplos são 総理(souri, para o primeiro ministro japonês) e 選手(senshu, para atletas em geral).
Já começou a nevar em Brasília? Senão, preparem-se!
Pois é, e acho que a culpa deve ser minha. De uns tempos para cá comecei a ter aulas de samba e samba de gafieira aqui em Tóquio, acompanhando a Maressa. O professor é japonês e dança muito bem (nós ficamos muito impressionados). Gradualmente, estou melhorando, embora ainda me sinta como o último da turma. Mas, com o tempo, as minhas pernas revestidas de concreto reforçado estão ganhando alguma flexibilidade. Quem sabe um dia até pareça uma dança de verdade! hehe.
Mas apenas dançar não é suficiente. É preciso inovar. Por isso, estou tentando trazer conceitos novos, inspirados em jogos de video game, para finalizar alguns passos. É algo como: passo para a direita, para a esquerda, volta seguidos depois de pilão rodado, voadora e salto mortal... hehehe